Anúncios
14 de julho de 2020

Hora news

Seu site de notícias

O que é fascismo, afinal?

O título que dá nome a esse texto é baseado num artigo escrito pelo jornalista e romancista George Orwell, em 1944. O trabalho faz parte de livro homônimo, publicado, em 2017, pela editora Companhia das Letras, talvez como resposta à popularização do conceito (ou dos sinais). É verdade que, já há algum tempo, a expressão “fascismo” tomou conta da esfera pública brasileira. O termo, esvaziado de seu significado original, vem sendo reproduzido e desassociado de sua precisão histórica. No Brasil Contemporâneo, tornou-se uma espécie de adjetivo diante da polarização, pois se por um lado o cidadão discute política, do outro o debate permanece desqualificado.

Todavia, faz-se necessário dizer que o artigo de George Orwell não permite a compreensão do fascismo como movimento social, inserido dentro de um contexto. Segundo George Orwell, seria necessário um distanciamento histórico para a análise daquilo que teria sido o fascismo italiano. Mas Orwell não para na impossibilidade! Antevendo o futuro e já percebendo a prática na primeira metade do século XX, o jornalista inglês descreve, no livro, um fenômeno parecido ao momento brasileiro do século XXI, em plena era do conhecimento: a banalidade. Assim como George Orwell escreveu que fascismo se tornou uma ofensa, um xingamento, o mesmo está a ocorrer em terras tupiniquins, mais de 70 anos depois.

Entendendo essa imprecisão e dificuldade, o Hora News foi buscar uma definição acessível, que se preocupasse com o contexto histórico, evitando anacronismos. Depois de muita procura, e após pesquisar em alguns livros basilares, o Site encontrou o trabalho de Umberto Eco, semiólogo, filósofo, ensaísta e uma grande referência no estudo do fascismo: o livro Fascismo Eterno (Editora Record, 2019). O livro é curto, baseado numa conferência proferida pelo estudioso, em 1995. Nele, o filósofo se insere numa narrativa pessoal para descrever o fascismo dentro de uma perspectiva histórica. Quase ao final, aponta ser possível, dada as características ideológicas do movimento político, rascunhar características ao fascismo, em diferentes épocas e contextos. O que Umberto Eco conceituou como Ur-fascismo – ou fascismo eterno –, seria uma amostra de um fascismo presente, que não se apresenta como vilão, mas em nosso cotidiano.

“(…) ideia de um chefe carismático, o corporativismo, a utopia do “destino fatal de Roma”, a vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, o ideal de uma nação inteira uniformizada pelas camisas negras, a recusa da democracia parlamentar, o antissemitismo”, pondera, quando define, pela primeira vez, no livro, o fascismo.

Antes de apresentar as características do Ur-fascismo, precisamos entender que o fascismo foi uma ideologia contraditória, se apropriando de diferentes ideologias, pois:

“Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica. Começou como ateu militante, para em seguida assinar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas (…) Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto “homem da providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir”, escreve Umberto Eco nas páginas 28 e 29.

Ainda para corroborar a ideia anterior, da falta ideológica, o filósofo compara nazismo e stalinismo e fascismo, agora no campo das artes. Se nos dois primeiros há uma rigidez, no fascismo italiano havia maior liberdade. Em sequência, o italiano chega ao ponto central de seu livro: entendendo que só é possível falar de um nazismo dada as suas particularidades, mas entendendo que o fascismo surge em diferentes locais dada a sua heterogeneidade conceitual, filosófica e política, o autor propõe um esquema universal para identificação do fascismo, em qualquer época.

Mas como Umberto Eco faz isso?

Entendendo que os diferentes fascismos não poderiam ser agrupados num mesmo sistemas, mas, mesmo assim, que as semelhanças, entre eles, caracterizam os diferentes regimes fascistas como fascistas. Para que podemos visualizar, o pesquisador dá um exemplo:

ABC    BCD    CDE    DEF

As letras representariam programas políticos e seus ideais. Por compartilharem ideais em comum, os diferentes grupos fariam parte d’uma mesma família. O primeiro grupoABC, se associaria ao segundoBCD, por possuírem duas características em comum: BC Assim como o segundo grupoBCD, se associaria ao terceiroCDE. O primeiro grupoABC, se associaria ao terceiroCDE, por dividir, com ele, uma característica em comum: a característica C. Todavia, por estarem nessa família e pelas semelhanças com os demais grupos, 2 e 3, o grupo 1 e 4 poderiam ser considerados fascistas, mesmo não compartilhando características em comum.

Assim, Umberto Eco, num sistema contraditório e irregular, propõe 14 características que comporiam um governo Ur-fascista. Para o pesquisador, bastaria portar uma dessas características para o regime se apresentar como uma “nebulosa fascista”.

1. Culto à tradição, apesar de “o tradicionalismo ser mais velho que o fascismo”. Tal culto levaria à rejeição ao progresso, pois a verdade já foi revelada e a verdade reside no passado.

2. Em consequência temos a RECUSA DA MODERNIDADE. Uma rejeição aos valores da Revolução Francesa: o iluminismo e o uso da razão passaria a ser visto como “depravação moderna”.

3. Há o culto ao irracionalismo, a ação pela ação, e uma rejeição ao pensamento científico” “”As universidades são um ninho de comunistas (…) a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-fascismo””, escreve na página 49.

4. Culto ao consenso: “desacordo é traição”. (p. 49).

5. Há o apelo à unidade. O Ur-fascismo é racista por definição, pois faz da diferença um instrumento de batalha, colocando a diferença como problema.

6. O Ur-fascismo viria da frustração de uma classe média. Por isso, ao longo da História, o fascismo cooptou esse grupo social. “(…) tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”, aponta, na página 50.

7. O nacionalismo se apresenta, principalmente àquelas pessoas “privadas de alguma identidade nacional”. Segundo Umberto Eco, são os inimigos que constroem a identidade de uma nação, por isso o Ur-fascismo se apresenta como conspiracionista em relação a inimigos internos e externos.

8. Ódio aos muitos ricos e a transmutação de forças: o inimigo ora é fraco ora é forte: ora será facilmente derrotado, ora é a ameaça, mortal, de destruição.

9. Militarismo, culto à arma e à violência. Luta pela vida. O pacifismo é rejeitado.

10. “Elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da História, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todavia, lembra Eco, a força do líder se ancora na fraqueza do povo, que, incapaz de decidir, atribui ao líder o poder para governar. Há uma hierarquia no sentido militar.

11. Educação como ponte ao heroico, ao heroísmo.

12. O militarismo e o heroísmo abrem brechas ao machismo e à rejeição ao diferente na sexualidade. Hermetismo sexual.

13. Populismo qualitativo. A democracia é rejeitada e o povo é comprimido sobre uma mesma ótica: de massa. O líder, então, passa a decidir pelo povo. O povo é uma “ficção teatral”. É diante dessa instância direta que o fascismo odeia o parlamento.

14. Umberto Eco fala em novalíngua e na forma como a educação é pensada para a alienação.

Por fim, o pesquisador fala da importância de estarmos atentos aos sinais de um ressurgimento: o Ur-fascismo não residiria na forma de um Mussolini, do grande líder, das grandes desgraças da humanidade, como foi o fascismo italiano, na década de 1930 e 1940, mas com o cidadão comum, no dia a dia, em nosso cotidiano, nas discussões políticas, nos ambientes virtuais.

REFERÊNCIAS

ECO, Umberto. Fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2019.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: